Os momentos de crise sempre fornecem instrumentos de reflexão sobre os erros cometidos pela estrutura social. Ao fazer essa reflexão, pode-se abordar temas fundamentais que levaram a essa situação: confusão entre o interesse público e o privado; estrutura empresarial ultrapassada; e incentivo ao consumismo exacerbado, gerando endividamento através do crédito.
O egocentrismo humano o leva a perder a noção entre o interesse privado e o bem comum. Em um grau elevado de civilização, o bem comum é mais importante do que os interesses particulares, porém a civilização seguiu a orientação de Adam Smith, que dizia ser o interesse individual o coletivo. Junta-se a isso teorias posteriores de entesouramento do dinheiro, como proposto por Keynes. Assim, prevaleceu uma sociedade de consumo e de acúmulo de capital. Este, passou a ser gerenciado principalmente pelos bancos, com a filosofia de crédito. Por um lado, o crédito destina dar utilidade ao dinheiro parado, mas, por outro, baseia-se em uma grande ilusão. Ele é a perspectiva de ganhar dinheiro com trabalho ou ganhos futuros, porém esse trabalho ou ganho ainda não existe de fato.
Dessa maneira, o indivíduo endivida-se com a perspectiva incerta de ganhar dinheiro futuro. Um sistema baseado em algo ilusório não pode durar muito tempo. Parafraseando Norberto Keppe: "tudo o que tem bases falsas chegará ao fim".
Toda a estrutura da sociedade foi montada no interesse privado. Até os grupos que deveriam ser os responsáveis pelo pensamento de bem comum agem de acordo com interesses de uma minoria. Venceu o egoísmo sobre o interesse coletivo.
Outro fator importante é a estrutura atual das empresas, questão essa denunciada por Marx. Os donos do capital passam a administrar as empresas, explorando o trabalho alheio. Assim, quem produz algo de fato é escravizado por algúem que forneceu o capital inicial. Este, mesmo depois de devolvido ao dono através do lucro, continua a valer simplesmente pelo início do negócio. Toda a estrutura de distribuição da renda é feita através do início do negócio, não correspondendo mais ao que a empresa é hoje. Isso leva ao acúmulo injusto do capital, pois não foi o trabalho do capitalista que o levou a ganhá-lo, mas o seu "capital inicial".
Em sua obra "Trabalho e Capital", Keppe propõe a solução para essa exploração através das empresas trilógicas. O capital inicial entraria a título de empréstimo, sendo os trabalhadores da empresa seus sócios. O lucro da empresa seria dividido proporcionalmente ao trabalho (produtividade) ou função. Assim, retira-se o mérito do ter e o coloca na ação. Os indivíduos que mais trabalham serão os maiores detentores de capital na empresa. Corrige-se, com isso, o fenômeno da exploração e do acúmulo exacerbado de capital. Nos EUA empresas com esse funcionamento têm incentivos fiscais.
Por último, vale destacar essa sociedade de consumo exacerbado. É produzido e consumido o supérfluo em nome do progresso. Os indivíduos, então, endividam-se para consumirem o que não é tão essencial para a sua vida, movidos pelo desejo gerado pela publicidade, pelo seu egoísmo, orgulho e inveja. Porém, a capacidade de endividamento chega ao limite, gerando os créditos "podres". As pessoas endividadas não compram; a indústria não produz e, assim, gera o ciclo tão conhecido da crise.
A crise, portanto, é econômica e moral. Para solucioná-la, é preciso a consciência de bem comum sobrepondo-se ao interesse particular, mudando a estrutura das empresas atuais pelo modelo trilógico. É preciso, ainda, acabar com essa publicidade exagerada, que busca vender produtos e serviços não necessários.Alguns poderão dizer que esse modelo proposto irá gerar desemprego. Basta olhar o planeta com análise crítica e se perceberá que falta emprego, mas não falta trabalho. Quantas casas, estradas, portos, aeroportos e melhorias não temos de fazer no mundo? Todos os ramos de atividade precisam ser melhorados. Isso gera trabalho para todos os habitantes do globo, porém, pelo interesse de uma minoria, temos bilhões de habitantes em situação de miséria. Essa minoria joga no lixo o nobre conceito de dignidade da pessoa humana.
Marcelo Brito Sener
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