Os espiritistas (tradução muito usada durante as primeiras décadas do século XX para o neologismo spirite) ou espíritas, na sua maioria, afirmam-se cristãos e atribuem à Doutrina Espírita o caráter de uma doutrina cristã, já que seguem os ensinamentos de Jesus. Entretanto, essa associação entre o Espiritismo (Doutrina Espírita) e o Cristianismo é contestada pelas religiões de matriz judaico-cristãs, sob a alegação de que, embora partilhe de valores cristãos, a rejeição espírita a diversos postulados bíblicos e teológicos preconizados pelas igrejas cristãs dominantes inviabilizaria a conceituação do espiritismo como "cristão".
Os espíritas fundamentam sua defesa do carácter cristão da Doutrina Espírita no fato de Allan Kardec, em seus diálogos com os Espíritos, ter concluído que a moral cristã, isenta dos dogmas de fé a ela associados, seria o que de mais próximo a um código de ética divino e racional o homem possuí. Os espíritas argumentam que os dogmas foram feitos pela Igreja Católica, sendo que muitos deles vão contra a razão, por isso não é necessário segui-los para ser cristão. Além disso, a resposta à pergunta 625 de O Livro dos Espíritos afirma ser Jesus o maior exemplo moral de que dispõe a humanidade, apesar de o espiritismo negar a ele qualquer carácter efetivamente divino [2].
A Profª.Drª. Dora Incontri, coordenadora do curso de pós-graduação em Pedagogia Espírita da Universidade Santa Cecília, defende o caráter cristão da Doutrina Espírita, apontando na proposta estruturada por Allan Kardec um novo modelo de religião, alheio a dogmas, fórmulas, hierarquias sacerdotais e baseado eminentemente no aspecto ético-moral do sujeito. Considera ainda Rousseau e Pestalozzi como os dois grandes precursores da idéia de uma "religiosidade natural" predominantemente moral, e defende que "evidenciou-se com a publicação de O Evangelho segundo o Espiritismo e de O Céu e o Inferno que, embora não o confessasse, ele [Kardec] estava fazendo uma nova leitura do Cristianismo". [3]
Já o Prof.Dr. António Flávio Pierucci, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, estudioso da religiosidade brasileira, procura demonstrar que o Espiritismo (Doutrina Espírita) não é uma religião cristã, afirmando que os espíritas utilizam o Cristianismo para se legitimar. Pierucci defende também que o vínculo com a Igreja Católica defendido pelos espíritas serviu, durante décadas, para lutar contra a discriminação e a intolerância. [4]
Um outro elemento importante, convém lembrar, é o conceito de "Consolador" ou "Consolador Prometido" atribuído ao Espiritismo, também denominado de "Terceira Revelação".
A figura do Consolador está em João, no cap. XIV, vv. 15 a 17 e 26. Ao Consolador estaria reservada a tarefa de relembrar ou complementar os ensinamentos de Jesus.
Allan Kardec trata deste tema em O Evangelho segundo o Espiritismo no cap. VI e em A Gênese, no cap. I (Caráter da revelação espírita), destacando ser a Doutrina Espírita uma terceira etapa da intervenção divina no reino dos homens. Moisés ao consolidar a idéia do Deus único teria trazido a 1ª revelação da lei divina; Jesus seria o responsável pela 2ª revelação, caracterizada pela concepção de Deus como Pai de todas as criaturas, que ama indistintamente seus filhos, lhes reservando glorioso futuro; ao Espiritismo caberia a continuidade deste trabalho de desvelar, de trazer novamente à luz.
Tanto Kardec, quanto outros autores espíritas situam a Doutrina Espírita como um corpo de conhecimentos que, no aspecto religioso, retoma em essência (e tão somente) os principais pontos das idéias de Moisés e de Jesus, aquelas livres dos embaraços teológicos e passíveis de se submeter-se a uma abordagem racional e moral de tintas universais, isto é, que podem ser atualizadas e utilizadas em qualquer tempo[5].
O conceito bíblico
As religiões de matriz judaico-cristãs entendem que, com a Lei dada a Moisés no Antigo Testamento, Deus interditou à Antiga Israel as comuniçações com o Mundo dos Espíritos e o uso de poderes sobrenaturais por eles concedidos. "... não haverá no meio de ti ninguém que faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, que interrogue os oráculos, pratique adivinhação, magia, encantamentos, enfeitiçamentos, recorra à adivinhação ou consulte os mortos (necromancia)" (Deuteronômio 18:10-14). Afirmam ainda que essa proibição é confirmada no Novo Testamento, através das referências contidas nos Evangelhos e no livro de Atos dos Apóstolos aos "espíritos impuros". A citação do apóstolo Paulo em Gálatas 5:20, afirma que quem pratica "feitiçaria" (ou bruxaria, o termo grego usado é farmakía) ... não herdará o Reino de Deus". (Na Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, o termo é vertido por "espiritismo". Mas esta aplicação da palavra não se refere, por óbvias razões cronológicas, à doutrina espírita). É comum encontrar referências ao uso do termo Espiritismo para denominar outras doutrinas e cultos que não sejam aquela codificada por Allan Kardec.
Já para a doutrina espírita, a Bíblia não condena a prática mediúnica em si, pois esta seria fundamentada em um fenómeno natural. A condenação bíblica, que também encontra apoio no movimento espírita, é o uso dos recursos mediúnicos para finalidades frívolas ou voltadas ao benefício próprio. Segundo ela, diversas passagens bíblicas exemplificariam a fenomenologia mediúnica, a exemplo de I Samuel 9:9, II Crônicas 16:7, e Mateus 17:1-8.
O diálogo com as religiões
A posição oficial da Igreja Católica proíbe terminantemente os seus fiéis assistir a sessões mediúnicas realizadas ou não com auxílio de médiuns espíritas - mesmo que estes pareçam ser honestos ou piedosos - quer interrogando os Espíritos e ouvindo suas respostas, quer assistindo por mera curiosidade. Posições similares têm as religiões evangélicas.
No entanto, a Igreja Católica não nega a possibilidade física de comunicação com entidades espirituais. Em pesquisas recentes, sob a tutela do Papa João Paulo II, o Padre François Brune publicou o livro Os Mortos nos Falam, em que defende a realidade das comunicações com os Espíritos. Além disso, principalmente no Brasil, é possível observar uma maior tolerância por parte de muitos leigos católicos às práticas mediúnicas.
Atualmente, muitas comunidades evangélicas, apesar de não concordarem com os preceitos teológicos e filosóficos do espiritismo, têm procurado, da mesma forma, manter com este uma relação respeitosa, por reconhecer nos trabalhos sociais desenvolvidos pelas casas espíritas uma atividade séria e comprometida. Algumas, inclusive, têm buscado uma aproximação concreta com as instituições espíritas, seja por meio da realização de cultos ecumênicos, seja através do diálogo inter-religioso.
A Doutrina Espírita, por sua vez, respeita todas as religiões e doutrinas, valoriza todos os esforços para a prática do bem e trabalha pela confraternização e pela paz entre todos os povos e entre todos os homens. Pois o Espiritismo tem como máxima a frase "Fora da caridade não há salvação" o que significa que sendo benevolente e caridoso você será gratificado, independentemente da sua crença, ao contrário do "Fora da Igreja não há salvação" que exclui todos que não seguem a Igreja, mesmo que caridoso, da salvação.
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
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