Uma análise da palavra demônio e de como eles foram associados à idéia de seres malignos
Por José Reis Chaves
Os biblistas têm que estudar Hermenêutica, que, entre muitas outras coisas, nos ensina que é imprescindível que saibamos o significado das palavras da época em que o autor hagiógrafo escreveu o seu texto, em hebraico, para o Velho Testamento, e em grego, para o Novo, a fim de que possamos entender a Bíblia. Essa regra vale não só para a interpretação correta dos textos dela, mas de quaisquer outras escrituras sagradas e de outros documentos antigos.
E vamos ao exemplo de uma palavra muito importante da Bíblia e que é objeto desta matéria, ou seja, o vocábulo grego "daimon", demônio, (plural "daimones", demônios), que foi traduzido por demônio em português. Essa palavra grega significava tanto na época de Jesus, quanto antes, alma humana. Escritos históricos e obras literárias daqueles tempos comprovam-nos esse significado. Assim é que Heródoto, em sua Odisséia, e textos sobre Sócrates usam "daimon" como sendo alma ou espírito humano. Sócrates dizia que seu demônio o protegia. Essa expressão equivalia às que se usam hoje, tais como meu anjo da guarda, meu guia, meu santo, meu mentor, meu protetor me protege, pois os antigos já sabiam que os espíritos dos "mortos", mormente os de nossos familiares, protegem-nos. Aliás, quando um católico recorre também a um santo da Igreja, ele se dirige ao espírito do santo e não ao cadáver do santo, que virou pó no cemitério!
Os historiadores medievais, ignorando a modificação de sentido que sofreu o vocábulo demônio, afirmavam que Sócrates tinha parte como um demônio. De fato, ele tinha parte com um demônio, mas que não era um demônio no sentido que passou a vigorar erroneamente no Cristianismo, ou seja, de ser ele pertencente a uma categoria de espíritos diferentes da dos seres humanos.
Como se sabe, os demônios ou espíritos desencarnados têm vários níveis de evolução. Uns são muito bons ou já bastante perfeitos, e outros ainda são bem atrasados. Os espíritos ou demônios já bem evoluídos - embora ainda não sejam anjos - e os ainda bastante atrasados ou muito "imperfeitos" constituem uma minoria. Já os demônios mias ou menos evoluídos, que não são ainda "santos" ou iniciados, e os que já não são também muito atrasados representam a maioria, que somos todos nós, eu que escrevi essa matéria e você que me lê! Usando uma linguagem corriqueira do povo, nós podemos ainda não merecer o paraíso, mas não somos tão maus a ponto de merecermos o inferno.
Sobre essas diferenças de níveis de evolução, Jesus nos deixou uma afirmação metafórica esclarecedora, ao dizer que na cas do Pai há várias moradas.
Essas diferenças de evolução entre os demônios são tão verdadeiras que Platão chegou a usar a expressão "demônios divinos", isto é, espíritos super-evoluídos, já equivalentes, pois, a anjos. Aliás, o Anjo Gabriel, citado na Bíblia, tem em seu próprio nome o significado de "homem iluminado ou homem de luz", o que nos lembra a expressão citada de Platão, de "demônio divino". E observemos que quando uma pessoa é muito perversa e cruel, nós a chamamos de demônio. A Bíblia chama também os espíritos, quer encarnados, quer desencarnados, de deuses (São João 10,34; Salmo 82,6; e 1 Samuel 28,13). Esses espíritos que se manifestavam eram chamados, pelos cristãos primitivos e às vezes atualmente, de demônios ou deuses pagãos. E, como acabamos de ver, nós, pela Bíblia, somo denominados também de deuses. De fato, somos demônios ou deuses.
Nós, estudiosos modernos de anjos, sabemos que eles são espíritos que manifestam um "alto nível evolutivo". No entanto, se diz "anjo mau", o que corresponde, obviamente, a demônio mau. Como se vê, faz parte de nossa linguagem popular que demônio (daimon) é mesmo um espírito, que tanto pode ser "bom", "mau" ou "mais ou menos", e que, como já foi dito, representa a maioria dos demônios ou de todos nós. Acrescente-se, ainda, a tudo isso o fato de existirem palavras gregas apropriadas para as variações de sentido da palavra daimon (demônio): eudaimon (demônio bom); kakodaimon (demônio mau); e daimon (demônio indefenido, neutro), o que enriquece mais a verdade que estamos abordando de que demônio é de fato um espírito, que pode ser bom (evoluído), mau (ignorante) e mediano (a maioria).
E é oportuno lembrarmo-nos aqui, também, da expressão "anjo" que se usa para se referir a uma criança que é sepultada. Essa expressão carinhosa, mas ao mesmo tempo supersticiosa, é oriunda da tenra idade da criança e da suposta crença de que existe apenas uma vida terrena - a criança não teria tido tempo de pecar - quer dizer que se trata de um anjo bom ou um demônio bom.
A Origem da confusão
Mas por que no Cristianismo demônios passaram a significar apenas espíritos maus ou impuros? Será porque todos os demônios que perturbam as pessoas são atrasados ou imperfeitos, isto é, ainda não purificados? De fato, demônios bons ou já com um certo nível de evolução não perturbam as pessoas. E como Jesus só retirava ou afastava das pessoas demônios impuros ou atrasados, eles, com o tempo, passaram a significar apenas espíritos maus, o que levou os cristãos a se esquecerem de que os demônios são espíritos em geral. Aliás, nenhum cristão queria que os demônios fossem humanos, porque ninguém queria admitir a hipótese de, no futuro, ser um deles! E o fenômeno de mudança de significado das palavras é comum em todas as línguas. Por exemplo, "bárbaro" era todo indivíduo que não pertencia ao Império Greco-romano. Mas "bárbaro" ganhou outro sentido quando se fala em crime bárbaro. E ainda podemos falar em um filme bárbaro, quando esse vocábulo "bárbaro" é sinônimo de espetacular.
Mas a confusão maior que se formou com relação ao demônio é com os seus falsos sinônimos. Por isso, desde já há muito tempo, muitos teólogos não acreditavam na existência de demônios e diabos, pois eles não sabiam que, na verdade, eles eram espíritos. E diabo, satã, satanás, serpente, dragão etc. não são sequer espíritos, mas coisas nossas. Ciúme, ódio, inveja, orgulho e ganância são exemplos de nossos diabos, satanases e satãs criados e sustentados por nós. Em outros termos, são nossos pecados. Lúcifer, do latim: "lucis" (luz) e "ferre" (transportar) significa porta-luz e, figuradamente, porta-inteligência ou a própria inteligência, daí que se atribui a lúcifer (inteligência) o comando dos chamados anjos rebeldes. De fato, é a inteligência que dirige tudo. No grego, também, lúcifer é "eosforo" (luz, inteligência), do que vem a nossa palavra em português fósforo. E serpente, metaforicamente é, igualmente, inteligência, em todas as culturas, inclusive na Bíblia. Daí Jesus ter dito: "Sede prudentes como as serpentes, mas mansos como as pombas". Já dragão simboliza o mal, tal qual o anti-cristo. E a serpente (inteligência) tentou Eva.
Realmente, como estamos vendo, há uma confusão dos diabos com relação à palavra demônio, que é mais usada no plural, demônios. E atentemos para o fato de que Jesus tirava das pessoas demônios, mas jamais tirou de alguém um diabo, um satanás, uma serpente e um dragão, pois apenas os demônios são espíritos!
José Reis Chaves é autor dos livros A Face Oculta das Religiões, a Reencarnação na Bíblia e na Ciência, entre outros.
sábado, 8 de setembro de 2007
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