terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Adolescentes: por uma ajuda consistente

Selma Genzani, Psicanalista Trilógica

Atendendo adolescentes na clínica de Psicanálise Integral em São Paulo e conversando com seus pais, vejo como estes se sentem perdidos ou completamente confusos, sem saber como proceder para lidar com seus filhos. Não encontram o meio termo, o que e até quando proibir? Quais os limites para não ser permissivo demais nem o “nada pode”.

Pensando na situação dos adolescentes de hoje em dia, podemos considerar vários fatores a serem trabalhados e conscientizados que muito podem colaborar nesta questão.

Um primeiro ponto que me vem à mente, e me chama muito a atenção é notar que, em geral, os adolescentes sofrem de um profundo desinteresse pela vida, pelo mundo onde vivem, pelo futuro, por ideais verdadeiros.

As preocupações estão mais voltadas para as baladas com amigos (quase sempre regadas a álcool, drogas e música eletrônica alienante), namoros, aparência (roupas descoladas, cabelos da moda), os últimos modelos da eletrônica e como conseguir dinheiro para tudo isso...

Tais objetivos provocam muita ansiedade, agitação, depressão, pois não suprem os verdadeiros anseios humanos e não trazem uma verdadeira realização.

Numa sociedade extremamente consumista como a nossa, o TER ocupa muito espaço, em detrimento do SER, que por si é bom, belo e verdadeiro e assim, só ações neste sentido poderão proporcionar bem-estar.

E aí entra a questão da inversão entre os jovens, porque a tendência é achar-se que aquele que é mais entusiasmado com a vida, mais dedicado a atividades construtivas, que gosta mais do bem é o “careta”; “cool” é ser apático, não dar valor a nada de bom que existe, não ouvir os pais nem os mais experientes, só ficar no próprio egoísmo, que na verdade, é uma vida de interesses bem restritos.

Com cada vez menos exceções, ouvimos jovens almejar algo que lhes motive de fato, seja com atividades esportivas, artísticas, científicas, voluntariado,etc.

Trabalho é tido como um mal necessário para gerar alguma renda,e raramente visto como fonte de realização (ação boa é imprescindível para o bem-estar) e muito menos de equilíbrio psíquico e orgânico. Aliás, esta inversão com o trabalho é um dos principais males do nosso tempo. Assim, o jovem pensa que quanto mais tarde tiver que assumir responsabilidades com sua própria vida, melhor. Ficar na dependência dos pais tem suas vantagens, afinal...

Outra questão é de fazer valer as vontades a qualquer custo, como se isto fosse liberdade quando, na verdade, o ser humano só é livre para agir de acordo com sua essência divinal, boa, bela e verdadeira. Caso contrário, estará agindo, pensando ou sentindo contra seu próprio ser o que, naturalmente, não poderá trazer resultado satisfatório. Já notaram como as vontades são sempre no sentido de se fazer algo destrutivo? Vontade de beber algo, fumar um baseado, fazer nada, gastar dinheiro, passar a madrugada num barzinho, dirigir loucamente, etc. Não temos um ímpeto de vontade de arrumar a casa, por exemplo, ajudar um necessitado, estudar toda a matéria para a prova ou algo assim. Nossa vontade é invertida também.

Dr. Keppe em suas geniais descobertas sobre a vida psíquica, como a inversão mencionada acima, aponta sempre a inveja como a raiz de todos os males. Inclusive a própria inversão deriva desta última, cuja forte presença Freud já notava em indivíduos psicóticos; esta rejeição ao bem, o mal estar e o ímpeto de querer destruir o bem que se observa na vida do próximo e, claro, na própria também, sem se dar conta.

Assim, o adolescente que não tem consciência de sua inveja, sente-se constantemente insatisfeito, é muito voraz com tudo, quer sempre mais pois nada realmente o satisfaz. Não fica bem consigo, seu físico o desagrada, sua escola também, seus amigos, suas roupas, sua vida, afinal. Melaine Klein já havia relacionado a questão da inveja com a falta de gratidão, quando observava a reação dos recém-nascidos em relação ao seio materno, que para eles é tudo, fonte de vida. Os mais receptivos, mamavam bem, sinal de menos inveja, desde a mais tenra infância e maior aceitação do bem em suas vidas.Já os mais invejosos, seguem nesta conduta de rejeição e insatisfação.Na vida cada um sempre tem inúmeras razões para ser grato, em primeiro lugar ao Criador, depois aos pais e por todo o bem que se recebe. Só que, para isso, precisa-se perceber e conter a inveja.

O poder sócio-econômico sempre se utiliza da patologia humana para marketear seus produtos e gerar mais lucro. Muito em voga atualmente entre os adolescentes (mas, não só entre estes) estão os jogos interativos para computador no estilo “second life” onde o jogador escolhe a vida que deseja ter. Determinando desde suas características físicas (cor de olhos e cabelos, estatura, etc.) até onde mora, sua família e atividades, o jogador passa a viver horas por dia entretido em sua “segunda vida”, virtual, abandonando o que tem valor realmente, sua existência real. Não está satisfeito com sua vida? Crie outra então! É como a materialização da inveja e da ingratidão na vida moderna, além de dar total azo à teomania – imaginar-se como um deus criador, com poder para realizar tudo o que desejar na própria e na vida alheia. Sem dúvida, é um curto caminho para a doença mental mais grave.

Evidentemente, formar jovens alienados, desligados da realidade e do mundo onde vive sempre foi um dos principais interesses da máquina que dirige nosso planeta, que não gosta de seres pensantes, inteligentes e contestadores.Aliás, muitos já tem associado a internet (quando mal usada) a uma das principais drogas da atualidade.

Sim, o quadro é assustador para quem tem filhos e faz-se urgente, de fato, o despertar de todos, mas especialmente pais e educadores, para a psicopatologia humana e seu poder de destruição, quando inconscientizada. Pois, o outro lado da moeda é que o poder da energética da consciência é ilimitado e altamente reparador, tanto no campo psíquico, como também no físico e no social.

Todos os esforços no sentido de romper as barreiras da alienação e da ignorância são plenamente recompensados, com o restabelecimento da ligação com a energia essencial divina, a qual inunda todo o planeta onde vivemos.

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