Antonio Gaspar
O Brasil corre o risco de enfrentar novamente um apagão na área de energia elétrica com o agravante de não contar com a ajuda argentina nem com o gás boliviano. Mesmo que melhore a situação dos reservatórios, que estão com 44,7% de sua capacidade no Sudeste e Centro-Oeste, o País pode ter de racionalizar energia, pois não tem condições de sustentar taxas de crescimento, como a registrada no terceiro trimestre de 2007, de 5,7%. A afirmação é do professor de Física Ennio Peres da Silva, coordenador do Laboratório de Hidrogênio da Unicamp e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Unicamp. "E quem tem carro movido a gás deve colocar as barbas de molho."
"Após a amarga experiência de 2001, quando algumas regiões do País ficaram sem energia elétrica, na crise conhecida como a do apagão, os governos não fizeram a lição de casa. A atual redução dos reservatórios não é resultado de uma situação anormal, no sentido de que não enfrentamos uma grande seca. Não faltam alertas. Mas, infelizmente, desde 2001 foram tomadas medidas paliativas. O governo atual deixou de lado projetos esboçados após a crise e mudou-se o foco, levantando-se a bandeira do biocombustível", diz Silva. "O biocombustível é importante, só que o principal problema está no fornecimento de energia elétrica. Sem ela o País pára."
De acordo com o cientista da Unicamp, na crise de 2001 o governo de Fernando Henrique Cardoso foi acusado de atuar sem planejamento no setor elétrico, de repassá-lo para o mercado. "Então o atual governo criou a Empresa de Planejamento Energético (EPE), que pensa o Brasil, só que para 2015, 2030... No curto prazo, a EPE repete o discurtso do governo." O problema, segundo o Silva, é que a EPE não tem independência. "A gente vê até mesmo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que possuem maior independência, indo além da trivialidade." O cientista da Unicamp lembra que, ¿em outros países, as políticas em áreas como a de energia elétrica são de Estado, não de governos".
A dificuldade do governo para tratar da questão de energia elétrica é tal que um estudo sobre conservação de energia apresentado pela seção brasileira da ONG Worldwide Found for Nature, criada por um grupo de cientistas suíços em 1961, para atuar na área ambiental, foi duramente atacado. "A organização dizia que havia forte recepção para a implantação de programa de conservação e uso racional de energia. A reação foi dura, porque o que os governos querem é gerar energia, fazer obras." A energia produzida por meio de hidrelétricas requer obras que necessitam de grandes somas. São necessários 10, 15 anos para uma hidrelétrica de médio ou grande porte entrar em operação.
A falta de planejamento no curto prazo é que está criando gargalos e também freando o desenvolvimento de novas tecnologias. "O Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica, como eólica e de biomassa, foi praticamente abandonado", diz Silva. "O desenvolvimento de tecnologias, como a de obtenção de energia elétrica de biomassa, depende de decisão política. É preciso investimento, como o que foi feito, por exemplo, pelo governo brasileiro na produção de etanol." Também é necessário ter claro o foco. E o foco mais emergente deve estar na questão da energia elétrica, segundo Silva.
O professor da Unicamp lembra que, em 1970, com o choque do petróleo, o País enfrentava a falta de combustível fóssil, mas o fornecimento de energia elétrica caminhava sem problemas. Em 2001, houve racionamento de energia elétrica, com corte de até 20% no consumo, com o mercado de combustíveis funcionando normalmente. Naquela oportunidade, segundo o professor, o Brasil ainda pôde comprar energia da Argentina. Agora, os argentinos também enfrentam uma crise e a Bolívia não deverá fornecer a quantidade de gás contratada para nossas termoelétricas. "De qualquer forma, é importante que esse debate venha a público, que não se espere o pior, para depois se tomar medidas corretivas", diz o professor da Unicamp.
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