domingo, 5 de agosto de 2007

O LUTO NÃO PÁRA A LUTA!

O homem é um ser lúdico por natureza: cheio de desejos, fantasias, ideais. Muitos destes, inclusive, nunca irão se realizar. Mas ele não desiste, já que sonhos pretéritos não carecem de materialização: são simples criadores de outros sonhos, os vindouros – ou as imagens do porvir! Caem governos, aumenta-se a descrença e a família se destrói, mas a humanidade ainda profere um otimismo kantiano, onde o mundo sempre caminha para o “progresso”, ou como um dia falou um nojento: “tudo acaba bem. Se não está bem é porque ainda não acabou”. Nesta terra, o sr. Pangloss é o rei e a sua palavra ameniza tristezas, sofrimentos e revitaliza sonhos antigos do tempo do vovô.

Um mundo melhor – será possível? Não acredito.

Nesta segunda-feira, 14, foi assassinada Altina Coutinho, uma cidadã. Mais do que isso: uma professora. Sim, o professor é mais que um cidadão, é mais que um ser humano, já que a sua função é criar cidadãos mais humanos, mais amenos, que vivam com alegria e compaixão e tenham respeito para com o mundo e o próximo.

O professor é um condutor de idéias. Mas não apenas isso, já que os seus ensinamentos estão incrustados na alma de todos aqueles que um dia foram alunos. Portanto ele não é formador simplesmente de opinião, mas, sim, de caráter. É um guia de condutas, instigador da moralidade, quando as crianças, já na sala de aula, ainda carregam um discernimento deveras incipiente. Não sabem definir o que seria a ética, mas trazem dentro de si o sentimento de que ela está consubstanciada na figura do seu professor.

Altina Coutinho – mulher perseverante e idônea, uma criadora de sonhos. “Tia Tina”, assim eu a chamava nos meus primeiros idos da adolescência, período em que se define a moralidade de um indivíduo. Esta é a fase em que o homem se encontra mais sujeito às influências dos outros, e esta alteridade é a responsável tanto pelas conquistas quanto pelos fracassos. Quem suporta estes últimos com o mínimo de lesões, na verdade não vence, apenas sobrevive, pois fracassos são sonhos desfeitos, malogrados.

Um dia tia Tina me disse que eu seria um grande poeta. Será? E agora, o que eu devo fazer? Cantar a barbaridade da sua morte? Acho que não. Mas, se ainda sou uma criança, quem irá evitar meu fracasso?

Àquela que encetou os meus sonhos não pode mais pedir os meus versos! Àquela que me chamou de poeta não pode mais proferir uma única palavra! A sua sabedoria foi silenciada por pessoas que, provavelmente, nunca tiveram um professor. O sonho acabou. Meu sonho acabou. Não creio em ninguém e não verso mais nada. Até o final não é meu, e sim de Antônio Machado: “o poeta é aquele / que tem o nada / e sabe / que ser poeta / é não ser”.

PS.: Mas lembrem-se, caros colegas, que apesar das palavras angustiantes e genericamente escatológicas, O LUTO NÃO PÁRA A LUTA!

Ronaldo Bastos
DIRETÓRIO ACADÊMICO DO CURSO DE DIREITO (FBV)

Nenhum comentário: