domingo, 5 de agosto de 2007

Resumo da doutrina de Sócrates e de Platão

Resumo da doutrina de Sócrates e de Platão

I – O homem é uma alma encarnada. Antes da sua encarnação, ela existia unida aos tipos primordiais, às idéias do verdadeiro, do bem e do belo; deles se separa em se encarnando e, recordando seu passado, está mais ou menos atormentada pelo desejo de a eles retornar.

II – A alma se extravia e se perturba quando se serve do corpo para considerar qualquer objeto; tem vertigens como se estivesse ébria, porque se liga a coisas que são, por sua natureza, sujeitas a mudanças; ao passo que, quando contempla sua própria essência, ela se dirige para o que é puro, eterno, imortal e, sendo da mesma natureza, fica ai ligada tanto tempo quanto o possa; então seus descaminhos cessam porque está unida ao que é imutável, e esse estado da alma é o que se chama a sabedoria.

III – Enquanto tenhamos nosso corpo, e a alma se encontre mergulhada nessa corrupção, jamais possuiremos o objeto dos nossos desejos: a verdade. Com efeito, o corpo nos suscita mil obstáculos pela necessidade que temos de cuidá-lo; ademais, ele nos enche de desejos, de apetites, de temores, de mil quimeras e de mil tolices, de maneira que, com ele, é impossível ser sábio um instante. Mas, se não é possível nada conhecer com pureza enquanto a alma está unida ao corpo, é preciso de duas coisas uma: ou que não se conheça jamais a verdade ou que se venha a conhecê-la depois da morte. Livres da loucura do corpo, então, conversaremos, é de esperar-se, com homens igualmente livres, e conheceremos por nós mesmos a essência das coisas. Por isso, os verdadeiros filósofos se exercitam para morrer e a morte não lhes parece de nenhum modo temível.

IV – A alma impura, nesse estado está entorpecida e é arrebatada de novo para o mundo visível pelo horror daquilo que é invisível e imaterial; ela erra, então, diz-se, ao redor dos mausoléus e dos túmulos, perto dos quais viu, por vezes, fantasmas tenebrosos, como devem ser as imagens das almas que deixaram o corpo sem estar inteiramente puras, e que retêm alguma coisa de forma material, o que faz com que o olhar possa percebê-las. Essas não são as almas dos bons, mas dos maus, que são forçadas a errarem nesses lugares, onde carregam o castigo da sua primeira vida, e onde continuam a errar, até que os apetites inerentes à forma material, que se deram, conduzam-nas a um corpo; e, então, elas retomam, sem dúvida, os mesmos costumes que, durante sua primeira vida, foram o objeto de suas predileções.

V – Depois da nossa morte, o gênio (daimon, demônio) que nos fora designado durante nossa vida, nos conduz para um lugar onde se reúnem todos aqueles que devem ser conduzidos ao Hades, para aí serem julgados. As almas, depois de terem permanecido no Hades o tempo necessário, são reconduzidas a esta vida em numerosos e longos períodos.

VI – Os demônios enchem o espaço que separa o céu da Terra; são o laço que une o Grande Todo consigo mesmo. A divindade, não entrando jamais em comunicação direta com o homem, é por intermédio dos demônios que os deuses se relacionam e conversam com ele, seja durante a vigília, seja durante o sono.

A palavra daimon, que deu origem a demônio, não era tomada no mau sentido na Antigüidade, como entre os modernos: não se dizia exclusivamente dos seres malfazejos, mas de todos os Espíritos em geral, entre os quais distinguiam-se os Espíritos superiores, chamados deuses, e os Espíritos menos elevados, ou demônios propriamente ditos, que se comunicavam diretamente com os homens. O Espiritismo diz também que os Espíritos povoam o espaço; que Deus não se comunica com os homens senão por intermédio dos Espíritos puros encarregados de transmitirem suas vontades; que os Espíritos se comunicam com eles durante a vigília e durante o sono. Substitui a palavra demônio pela palavra Espírito e tereis a Doutrina Espírita; colocai a palavra anjo e tereis a Doutrina Cristã.

VII – A preocupação constante do filósofo é de tomar o maior cuidado com a alma, menos por esta vida, que não é senão um instante, do que em vista da eternidade. Se a alma é imortal, não é mais sábio viver com vistas à eternidade?

VIII – Se a alma é imaterial, depois desta vida ela deve seguir para um mundo igualmente invisível e imaterial, da mesma forma que o corpo, em se decompondo, retorna à matéria. Importa somente distinguir bem a alma pura, verdadeiramente imaterial, que se nutre, como Deus, de ciências e de pensamentos, da alma mais ou menos manchada de impurezas materiais que a impedem de se elevar até o divino, e a retêm nos lugares de sua morada terrestre.

IX – Se a morte fosse a dissolução total do homem, seria um grande lucro para os maus, depois de sua morte, estarem livres, ao mesmo tempo, de seus corpos, de sua alma e dos seus vícios. Aquele que ornou sua alma, não de um enfeite estranho, mas do que lhe é próprio, só este poderá esperar tranqüilamente a hora da sua partida para o outro mundo.

X – O corpo conserva os vestígios bem marcados dos cuidados que com ele se tomou, ou dos acidentes que experimentou; ocorre o mesmo com a alma. Quando ela está despojada do corpo, carrega os traços evidentes do seu caráter, de suas afeições e as marcas que cada ato da sua vida lhe deixou. Assim, a maior infelicidade que possa atingir o homem, é a de ir para o outro mundo com uma alma carregada de crimes. Tu vês, Callicles, que nem tu, nem Pólus, nem Górgias, não saberíeis provar que se deve levar uma outra vida que nos será útil quando estivermos lá embaixo. De tantas opiniões diversas, a única que permanece inabalável, é a que vale mais receber que cometer uma injustiça e que, antes de todas as coisas deve-se aplicar, não em parecer homem de bem, mas a sê-lo. (Diálogos de Sócrates com seus discípulos, na sua prisão).

XI – De duas coisas uma: ou a morte é uma destruição absoluta, ou ela é a passagem de uma alma para um outro lugar. Se tudo deve se exterminar, a morte será como uma dessas raras noites que passamos sem sonho e sem nenhuma consciência de nós mesmos. Mas se a morte não é senão uma mudança de morada, a passagem para um lugar onde os mortos devem se reunir, que felicidade nele reencontrar aqueles a quem se conheceu! Meu maior prazer seria o de examinar de perto os habitantes dessa morada, e de aí distinguir, como aqui, aqueles que são sábios daqueles que crêem sê-lo e não o são. Mas é hora de nos deixarmos, eu para morrer, vós para viver. (Sócrates a seus juízes).

XII – Não é preciso nunca retribuir injustiça por injustiça, nem fazer mal a ninguém, qualquer seja o mal que se nos tenha feito. Poucas pessoas, entretanto, admitirão este princípio, e as pessoas que estão divididas não devem senão se desprezar umas às outras.
XIII – É pelos frutos que se reconhece a árvore. É preciso qualificar cada ação segundo o que ela produz: chamá-la má quando dela provém o mal, boa quando dela nasce o bem.

XIV – A riqueza é um grande perigo. Todo homem que ama a riqueza não ama nem a si, nem o que está em si, mas a uma coisa que lhe é ainda mais estranha que aquela que está em si.

XV – As mais belas orações e os mais belos sacrifícios agradam menos a Divindade que uma alma virtuosa que se esforça por assemelhar-se a ela. Seria uma coisa grave se os deuses tivessem mais consideração para com as nossas oferendas que pela nossa alma; por esse meio, os mais culpáveis poderiam se lhes tornarem favoráveis. Mas não, não há de verdadeiramente justo e sábio senão aqueles que, por suas palavras e pelos seus atos, desempenhem-se do que devem aos deuses e aos homens.

XVI – Chamo homem vicioso a esse amante vulgar que ama o corpo antes que a alma. O amor está por toda parte na Natureza, que nos convida a exercitar nossa inteligência; é encontrado até nos movimentos dos astros. É o amor que orna a Natureza de seus ricos tapetes; ele se enfeita e fixa sua morada lá onde encontra flores e perfumes. É ainda o amor que dá a paz aos homens, a calma ao mar, o silêncio aos ventos e o sono à dor.

XVII – A virtude não se pode ensinar, ela vem por um dom de Deus àqueles que a possuem.

É aproximadamente a doutrina cristã sobre a graça; mas, se a virtude é um dom de Deus, é um favor, que se pode pedir, porque ela não é concebida a todo o mundo; por outro lado, se é um dom, ela é sem mérito para aquele que a possui. O Espiritismo é mais explícito; ele diz que aquele que possui a virtude a adquire por seus esforços em existências sucessivas, em se despojando, pouco a pouco, das suas imperfeições. A graça é a força da qual Deus favorece todo homem de boa vontade, para se despojar do mal e para fazer o bem.

XVIII – É uma disposição natural, a cada um de nós, se aperceber bem menos dos nossos defeitos que dos de outrem.

XIX – Se os médicos fracassam na maioria das doenças é que tratam o corpo sem a alma, e que, o todo não estando em bom estado, é impossível que a parte se porte bem.

XX – Todos os homens, a começar desde a infância, fazem muito mais mal do que bem.

XXI – Há sabedoria em não crer saber aquilo que tu não sabes.

Isto vai endereçado às pessoas que criticam aquilo de que, freqüentemente, não sabem a primeira palavra. Platão completa esse pensamento de Sócrates, dizendo: “Experimentemos primeiro torná-los, se isso é possível, mais honestos em palavras; senão, não nos preocupemos com eles, e não procuremos senão a verdade. Esforcemo-nos em nos instruir, mas não nos injuriemos”.

Foi por ter professado esses princípios que Sócrates foi primeiro ridicularizado, depois acusado de impiedade, e condenado a beber cicuta; tanto isso é certo que as grandes verdades novas, levantando contra si os interesses e os preconceitos que machucam, não podem se estabelecer sem luta e sem fazer mártires.

Nenhum comentário: